Publicado por: alandamotta | outubro 30, 2012

A situação crítica dos índios Guarani-Kaiowá, em defesa aos índios.

O laço que contorna os índios e a natureza é muito maior do que a nossa, e os homens “brancos” não sabem que esse laço, que não é somente físico, mas também espiritual, não há como tirar deles, entretanto, até nos dias atuais, retiram a terra dos mesmos sem qualquer dó ou entendimento sobre a questão, o índio sem a sua terra e sua natureza é um índio com fome e sem alma.

 

Entre os anos de 1986 a 1999, a tribo Guarani-Kaiowá, localizada no Mato Grosso do Sul, no qual sempre lutaram pela defesa de suas terras, tribo também de pouco acesso por nós, cometeram 308 suicídios, e entre os anos de 2000 a 2011, 555, totalizando 863 suicídios, dados lastimáveis, estes oficiais, fora os extraoficiais ou omitidos pelo Estado brasileiro, “parceiro” por décadas dos grandes investidores da terra, que são os culpados pelo extermínio destes índios.

Além dos suicídios no decorrer dos anos acima mencionados, no dia 24 de outubro, semana passada, uma indígena de Pyelito Kue foi abusada sexualmente por oito homens em uma fazenda, conforme denunciaram os indígenas. O Estado do Mato Grosso do Sul tem o maior índice de indígenas assassinadoscerca de 500, sendo 270 lideranças, em dez anos.

Ocorre que, com o avanço da agropecuária, como da agricultura, cana, soja etc, através de grandes multinacionais, como a Monsanto, a Bunge, Cargill, Adm, e a falta de fiscalização e seriedade na questão das terras indígenas pelo Estado, colocando em confinamento os índios do MS onde foram recolocados em outras terras desde a ditatura, estão levando-os aos suicídios, na maioria jovens, porque eles necessitam de suas terras para viver, friso, tanto fisicamente quanto espiritualmente, pois que o laço entre eles e a natureza nós não temos a mínima noção ainda para entender, mas devemos respeitar suas crenças milenares com a natureza, além de suas terras ancestrais que foram tiradas a força.

Um dos líderes da tribo Guarani-Kaiowá, Ládio Veron, em entrevista realizada a Carta Maior, disse ao jornalista: “estamos sendo encurralados, prejudicados, massacrados através dos jornais e das decisões dos juízes (…) a cana que hoje está sendo plantada lá e colhida como etanol já é misturada com sangue indígena Guarani Kaiowá”, disse o cacique.

Com as ações de despejo pelos grandes latifundiários de suas fazendas ao longo do Estado do Mato Grosso do Sul, e sem as demarcações necessárias pela FUNAI que demora no processo, no qual deveria ser célere, estão levando ao desespero e a extinção de uma tribo que nós deveríamos cuidar com o maior zelo, até mesmo por respeito a dignidade da pessoa humana e ao direito de propriedade, nos quais tiraram-lhes no decorrer dos séculos e agora querem finalizar, diante do capitalismo desenfreado das multinacionais que não respeitam nem mesmo o desenvolvimento sustentável, e muito menos os índios.

A falta de fiscalização estatal e a demora nas demarcações de terras indígenas, processos judiciais e interesses políticos covardes, levam tudo a um ponto central, se a população não agir, não serão nossos políticos que irão, porque eles estão no poder não por investimento de suas campanhas pelos índios, mas por empresas multinacionais já citadas e outras que querem explorar sem qualquer sustentabilidade nossas florestas e “matar” nossos índios, coincidentemente maiores investidores de campanhas políticas.

Em decisão da justiça federal em 29 de setembro de 2012, um mandado de despejo contra os índios foi concedido, o que levou a liderança da tribo enviar uma carta aos nossos “líderes” sobre a questão, segue abaixo, na íntegra, a carta dos índios Guarani-Kaiowá:

 

Íntegra da a carta dos índios guarani-kaiowás:

 

Carta da comunidade Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay-Iguatemi-MS para o Governo e Justiça do Brasil

Nós (50 homens, 50 mulheres e 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, viemos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante de da ordem de despacho expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, do dia 29 de setembro de 2012. Recebemos a informação de que nossa comunidade logo será atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal, de Navirai-MS.

 

Assim, fica evidente para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver à margem do rio Hovy e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay. Entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Navirai-MS é parte da ação de genocídio e extermínio histórico ao povo indígena, nativo e autóctone do Mato Grosso do Sul, isto é, a própria ação da Justiça Federal está violentando e exterminado e as nossas vidas. Queremos deixar evidente ao Governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na Justiça brasileira. A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós.  Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy onde já ocorreram quatro mortes, sendo duas por meio de suicídio e duas em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas.

 

Moramos na margem do rio Hovy há mais de um ano e estamos sem nenhuma assistência, isolados, cercado de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Passamos tudo isso para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários os nossos avôs, avós, bisavôs e bisavós, ali estão os cemitérios de todos nossos antepassados.

 

Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui.

 

Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação e extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para  jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais. Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal. Decretem a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e enterrem-nos aqui. Visto que decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem mortos.

 

Sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo em ritmo acelerado. Sabemos que seremos expulsos daqui da margem do rio pela Justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo e indígena histórico, decidimos meramente em sermos mortos coletivamente aqui. Não temos outra opção esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS.   

 

Atenciosamente, Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay”

 

Em nota sobre toda a situação, que repercutiu em âmbito nacional (estranhamente somente por comunicações virtuais e não televisivas), a FUNAI emitiu uma nota confirmando o direito que os índios reivindicam e a lastimável situação em que vivem, segue abaixo a nota da FUNAI na íntegra do dia 25 de outubro de 2012:

“A Fundação Nacional do Índio (Funai) reconhece a luta dos povos Guarani e Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, por suas terras tradicionais e esclarece que a determinação da comunidade de Pyelito Kue de não sair do local que considera seu território ancestral é uma decisão legítima. A Funai respeita sua decisão e sua autodeterminação.

 

Nesse sentido, a Funai se manifesta para informar as ações que vem desenvolvendo na região, a fim de garantir os direitos dos Guarani e Kaiowá e de minimizar a grave situação que têm vivenciado.

 

Desde 2008, a Funai investe no trabalho de regularização das terras indígenas, quando instituiu seis Grupos de Trabalho (GTs) para a identificação e delimitação de terras Guarani e Kaiowá no Cone Sul do estado de Mato Grosso do Sul. Em julho deste ano, a presidenta e assessores da Funai estiveram presentes à Aty Guasu (Grande Assembléia dos Povos Kaiowá e Guarani), na aldeia Rancho Jacaré, município de Laguna Carapã/MS. Na ocasião, ficaram acordados novos prazos para entrega e aprovação dos relatórios de identificação e delimitação feitos pelos antropólogos responsáveis. Esse acordo foi pactuado pelos antropólogos coordenadores dos Grupos Técnicos, junto com a Funai, perante os indígenas.

 

A Funai reafirma, assim, o compromisso de aprovar os Relatórios Circunstanciados de Identificação e Delimitação das terras indígenas Guarani e Kaiowá no Cone Sul/MS, dentro dos prazos pactuado na Aty Guassu. Ademais, a Funai segue dando continuidade, em caráter prioritário, aos processos de regularização fundiária das terras Guarani e Kaiowá que já se encontram em estágio avançado do procedimento administrativo de demarcação.

 

No caso das comunidades Guarani e Kaiowá que sofrem com processos de judicialização de suas terras, como, por exemplo, Pyelito Kue, Passo Piraju, Arroio Korá, Kurusu Ambá, Ypoi, Nhanderu Marangatu, Laranjeira Nhanderu, entre tantas outras, a Funai reitera que continuará prestando assessoria e acompanhamento jurídico, a fim de que os processos sejam julgados o mais breve possível. A Funai permanece confiando que as decisões do Poder Judiciário sejam emanadas no sentido do reconhecimento e da reafirmação do direito do povo Guarani e Kaiowá às suas terras de ocupação tradicional.

 

A Funai afirma, mais uma vez, seu apoio às comunidades que se encontram em acampamentos e áreas de retomada nessa região, em sua legítima luta pela terra. Para isso, ações coordenadas emergenciais, efetuadas por várias instâncias do governo federal, de segurança e garantia de atendimento à saúde e segurança alimentar, vêm sendo implementadas desde a segunda semana de outubro, com rondas periódicas da Força Nacional e da Polícia Federal, atendimentos de emergência, além de inclusão de lideranças ameaçadas no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos da Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH).

 

A Funai trabalha ainda na finalização de um Plano de Proteção e Prevenção de Conflitos Fundiários para essa região. A formulação do plano foi iniciada em agosto deste ano, a partir de reunião provocada pela vinda de lideranças indígenas do Conselho da Aty Guasu e do tekohá Arroio Korá que demandavam soluções imediatas para os sérios problemas que as comunidades vêm enfrentando. Participaram da reunião representantes da Funai, da Secretaria Nacional de Articulação Social, da Polícia Federal, da Força Nacional de Segurança Pública e da Secretaria Nacional de Direitos Humanos.

 

A Funai ressalta a gravidade da situação dos Guarani e Kaiowá, cuja população é de 45 mil pessoas distribuídas por pequenas áreas. A situação é caracterizada como de confinamento, devido à alta densidade populacional. A qualidade de vida e, especificamente, a segurança alimentar, estão associadas ao acesso efetivo dos povos indígenas ao seu território tradicional.

 

Fundação Nacional do Índio – Funai

 

Brasília, 25 de outubro de 2012”.

 

É de suma importância esclarecer que os meios de comunicação virtuais estão gerando e estão provando que tem força na sociedade brasileira, como ocorreu no Egito, com as revoltas populares e o fim da ditadura, são meios de comunicação independentes, sem interesses políticos envolvidos como as televisivas, instrumentos necessários numa democracia, que informam ao povo o que vem ocorrendo em nossa sociedade, omitidos por outros meios de comunicação corrompidos por interesses próprios e alheios.

Portanto, esperamos que o povo brasileiro, nessas novas ferramentas de espalhar notícias e se comover com situações lamentáveis, possa sempre pressionar o Estado e seus órgãos a fiscalizar e a combater injustiças, tanto na seara política (corrupção), quanto na seara ambiental, indígena… Como disse Abraham Lincol: “A democracia é o governo do povo, pelo povo, para o povo”, e uma parte do povo brasileiro são os índios!

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